Pandemia à espanhola: reflexões de um brasileiro confinado

Há pouco tempo a Espanha passou a confinar a população. Estamos encerrados em casa para frear o risco de contágio do coronavírus. Por orientação sanitária e imposição governamental, estamos todos restringindo ao máximo o contato humano.

As coisas não vão bem. Hoje morreram 169 pessoas. Na Itália foram mais 427. A quantidade total de mortos é assombrosa. Em ambos os países os falecidos passam de três mil e quinhentos.

Nós, os vivos, alimentamos a imaginação. Enquanto uns esquivam-se de tudo e de todos, acreditando que na solidão encontrarão saúde, outros não dão ouvidos às orientações dos especialistas e, como se o mundo fosse acabar, estão a usufruir perigosamente aquele pouco de vida que lhes resta, bebendo e gozando, sem dar ouvidos a ninguém e sem querer ouvir notícias de fora. O mercado aqui próximo realmente já não têm garrafas de vinho em suas prateleiras. Eu entendo ambas as formas de encarar as coisas. Viver com temperança nos ajuda a resistir à doença, mas o álcool não deixa de ser um ótimo borrão que nos faz olvidar agruras.

Quando a noite chega, na solidão de nossos quartos, imaginamos se temos, ou não, essa doença misteriosa. Cada sensação diferente nos assombra. A saliva que não desce, o calor que não passa, são sintomas daquilo que não queríamos ter. Sintomas quase sempre falsos, é claro. Na cidade onde vivo não foram diagnosticados muitos casos. A mente não cansa de pregar peças.

Mesmo assim, esse quadro praticamente nos paralisa. Estou no sexto dia de confinamento e, confesso, não fiz quase nada. Não tenho disposição para estudar, ler ou trabalhar. Os fatos sempre urgentes nos sequestram a atenção. É difícil recobrar o controle da vida.

Me desagrada ruminar essas misérias. As pessoas estão a morrer e eu, que só sirvo para pensar e escrever, estou fechado em meu apartamento, sentado no computador. Que inutilidade a minha. Como consolo, minto para mim que, escrever o cotidiano, olhar no olho dos sentimentos do dia, demarca-os para a posteridade para que não caiam no esquecimento e, quiçá, sirvam para algo (ou alguém). Isso se alguém fosse ler essas tortas linhas…

Pensei em dizer que sinto “medo”. Mas não é isso. Não é essa a palavra que melhor expressa o que sinto. Talvez seja “angústia” do que acontecerá. Digo por mim, claro. Dias tão intensos e tão fúnebres produzem muitos pensamentos difíceis de explicar, sobretudo quando se referem aos familiares e amigos que estão distantes e que há muito não vejo.

Como é viver em uma prisão domiciliar, proibido de sair de casa? Esse questionamento me foi feito por muitos, sobretudo aqueles que conhecem o meu espírito libertário. É uma questão que, aparentemente, parece fácil de explicar, mas que, como verão, não é tão simples.

Nos primeiros dias após a decretação do Estado de alarme a maior angústia era o desabastecimento dos supermercados. Todos correram às compras e, em alguns lugares, as prateleiras esvaziaram. Agora percebo que os produtos estão sendo repostos. Entretanto, para lamento de minha voracidade animal, as tentativas de comprar carne aqui em Sevilla têm sido frustradas. Foi o primeiro item a terminar.

O meu cotidiano está praticamente idêntico. Eu já vivia preso nesses cubículos que chamamos de quarto-apartamento-escritório. Seja aqui ou acolá, continuo vigiado nas ruas e nas oficinas. A vida continua sendo acordar, trabalhar, consumir e dormir. Mesmo confinado, não há espaço para ócio. Os deveres continuam aí. A caixa de e-mail lotou-se com anúncios de tele-trabalho, aulas à distância. A vida não para. E quem trabalha no pesado, vendendo o seu suor, terá de trabalhar dobrado depois. Podem apostar comigo.

Também é bom dar o nome aos bois. Vivemos na Espanha a suspensão das liberdades de reunião e locomoção. Eles não nos dizem assim, mas é isso. Podemos realizar apenas algumas atividades previamente autorizadas, como ir ao supermercado, farmácia ou hospital. Os comércios, escolas e restaurantes estão fechados e as forças armadas se encarregam de fiscalizar o cumprimento dessas determinações sanitárias.

Tenho a sensação de viver em uma fúnebre distopia disciplinar. Controle total sobre os corpos. Além de vermos os militares patrulhando as ruas, há um forte apoio popular às medidas decretadas pelo governo. A população se une diariamente para, aplaudindo das janelas e varandas dos edifícios, agradecer àqueles que bravamente trabalham nos serviços de saúde e segurança. A quantidade mortos aí é lamentavelmente grande.

Em paralelo a isso, tenho a sensação de ver surgir uma coesão social em torno desse inimigo invisível, externo e desconhecido, que está a acender um sentimento que tenho dificuldades de descrever. Em uma perspectiva positiva, o luto pode nos ensinar valores de comunhão e solidariedade. Por outro lado, eventual busca de culpados pela tragédia pode nos afundar (ainda mais) na lama do nacionalismo e da xenofobia.

Mas não quero me adiantar. Deixo essa análise para um segundo momento. Prefiro aguardar mais alguns dias e seguir analisando o contexto que se apresenta a minha frente.

De antemão adianto-lhes que o empilhamento de corpos não é uma oportunidade para recobrarmos nossas vidas do capitalismo – como, poeticamente, tem sido anunciado esperançosamente por aí. O isolamento social talvez seja um bom momento para quem é endinherado ficar em casa e desfrutar melhor da família. Todavia, para quem não é privilegiado – como os trabalhadores precarizados – a vida já é uma aventura.

Para quem vive nas ruas, recolhe lixo ou mora em uma favela escapando da guerra entre o tráfico e a polícia, conseguir o pão é uma vitória diária. Essa gente só cai lutando. E serão eles, os pobres que não podem se dar ao luxo de ficar em casa sem trabalhar, que serão os atingidos pela doença, enquanto os governos covardemente socorrem os banqueiros e agiotas.

Infelizmente, não tenho boas esperanças.